Inglês: assim não dá, gente! Um desabafo amargo e doce ao mesmo tempo

Sabe quando a gente precisa compartilhar uma coisa que há tempos está incomodando, mas faz de conta que está tudo bem? Caramba, com as ofertas de desenvolvimento de inglês no Brasil, online, offline, above and below the line, onde for, não está tudo bem, não!

Convido você a pesquisar “Brazilian English” no Google. Se você não quiser ir ver por si, já adianto: são comentários um tanto preocupantes. São críticas, muitas críticas! E qual é a razão dessas críticas?

Para quem está de fora escutando muitos de nós falar, a impressão é de que brasileiros, na media, simplesmente não conseguem falar bem inglês. Será fato ou um preconceito?

Quando se trata de candidatos em processos seletivos (algo que faço com frequência), vejo que existe uma realidade de insuficiência, sim.

Na minha consultoria avaliamos o inglês de candidatos em processos seletivos

Acontece que essa insuficiência – que agora compartilho – é muitas vezes resultado de ofertas enganosas. Quer dizer, os aprendizes brasileiros confiam em muitas soluções que não entregam conhecimento maduro, real. É um pouco da marca nacional, se é que me entendem… E como vão fazer? Se buscam ajuda, isso quer dizer que, por si, a maioria de nós não consegue avaliar cursos e materiais.

‘Help me!’

Com esses mal-estar e desabafo, tenho a obrigação de compartilhar a minha experiência de forma mais marcante e participative: eu e minha equipe trabalhamos com inglês profissional há mais de 20 anos – temos diversas publicações especificas para o uso do inglês no trabalho e o nosso mundo é achar caminhos para facilitar a profissionalização da comunicação internacional dos brasileiros. Como disse meu falecido editor, aquele me publicou primeiro, fomos três autores que modificamos o ensino de inglês no Brasil, Ron Martinez (aquele do Como Dizer Tudo em Inglês…), Michael Jacobs e seu Como não Aprender … e eu, com o Inglês Urgente para Brasileiros. Achei bacana quando ouvi isso, mas nunca de fato tinha me apropriado dessa verdade. Acredito que escrevendo isso aqui começo finalmente a fazê-lo.

O destaque é para a capa da nova edição. A outra saiu há 19 anos e já estava graficamente meio passadinha.

 

Mas o ponto é: precisamos fazer alguma coisa para combater as soluções milagrosas que são oferecidas online e nas prateleiras das livrarias. Por quê? Porque na ideia do “milagre” está uma subversão. “Milagre” significa que as coisas não vão acontecer como normalmente acontecem. Alguém vai segurar água com as palmas das mãos voltadas para baixo, vai caminhar na parede, vai… aprender inglês sem “estudar”, sem se concentrar, sem pensar, sem nada, enfim. Vai aprender inglês por quimica oculta.

 

Alquimia. Milagre.

Ou seria bruxaria?

A triste alternativa à magia é que se vai estar aprendendo de alguém que, ele mesmo, não sabe muito. mmm sério?

Exemplo: recebi o link de um video de um professor de inglês, conhecido por ter uma presença online muito forte. Não vou mencionar o nome dele – nem tanto porque é antiético, e sim mais porque é  realmente desagradável ficar apontando os erros dos outros. Aponto to make my point. E só vou até ali. Deve bastar.

Enfim, resolvi assistir o tal video para saber como ele conduz a produção dos seus videos, eu mesma já tendo feito alguns. Afinal, estamos todos vendendo online por esses dias. Estava pensando se eu podia aprender alguma coisa.

Mas me deparei com algo bem diferente.

A pronúncia do inglês é cheia de meandros, detalhes, coisas que a gente nem imagina. Algumas são impossiveis da gente saber, de tão particulares e dignas de figurar em armadilhas, mas outras são parte do conhecimento da língua em diferentes níveis. Em outras palavras, são coisas que quem ensina tem de saber.

Existem conhecimentos básicos, intermediários e avançados de pronúncia (e de estrutura e de vocabulário também, mas meu exemplo é de pronúncia, então estou focando nela). Aliás, usei essa classificação no meu Curso de Pronúncia online , depois de passar anos pensando nisso.

Snapshots do meu Curso de Pronúncia para Brasileiros.

Já se vão 16 anos desde o lançamento do meu Guia de Pronúncia para Brasileiros, livro que escrevi com o Philip White e a Fonoaudiologa Marta Zanetini. O Guia ensinou gente muito boa sobre falar inglês direito. Gente como o Denilso de Lima, do Inglês na Ponta da Língua. Olha que simpático o que ele comentou sobre o Guia:

O Guia de Pronúncia mudou de editora e em breve terá cara nova, mas por enquanto ainda é assim.

Essa ideia do conhecimento de pronúncia em níveis eu tive bem depois de escrever o Guia, depois de fazer workshops de pronúncia em empresas, em consulados e embaixadas do Brasil no exterior, também online, e sobretudo na minha cabeça, refletindo e pesquisando sobre esse conhecimento.

Workshops de Pronúncia em Brisbane, Wellington (na Embaixada do Brasil) e Sydney (no Consulado).

Então, você tem expectativa que seu professor saiba até o nível avançado, certo?

Bom, deixa eu mostrar, vai. Adorei quando vi minha nota 9 no speaking do IELTS, porque senti que estava no caminho certo quando optei por ensinar a pronúncia do inglês. A propósito, a nota mais alta do IELTS não é 10, e sim 9. E quem já fez esse teste sabe que o speaking é a única etapa nele em que a gente consegue ser natural; o resto – writing, reading e listening – avalia gestão do tempo tanto quanto – ou até mais do que – inglês.

Não lembro de quando tirei essa foto, mas agora percebo que estou bem com a cara de quem passa pelo estresse desse tipo de avaliação…

Pois é…Voltando ao assunto, então, tem esse conhecimento – coloquei na úlltima aula do nível intermediário do meu Curso de Pronúncia – que mostra que a gente fala a palavra com acento diferente conforme o papel que ela tem na frase. Assim:

Snapshot da aula 8 do Módulo Intermediário do Curso de Pronúncia.

No final da video-aula inclui uma lista. São várias palavras que tem essa caracteréistica, palavras comuns como record, present, conflict, dentre outras. E o sujeito e o objeto, subject and object, de que meu colega fala em seu video, casualmente, são palavras que estão nesse grupo, mas…

Ele errou sistematicamente a sílaba tônica das palavras object e subject, transformando “objeto” e “sujeito” em “objetar” e “sujeitar”. Então o discurso dele, traduzido –ou para ouvidos anglo-saxões, ficou mais ou menos assim:

Estes são os “pronomes objetar.” (em vez de “pronomes objeto”)

Aqueles são os “pronomes sujeitar.” (em vez de “pronomes sujeito”)

Mas claro, para quem não sabe que existe uma diferença na pronúncia marcando a função da palavra, esse erro não aparece. O que não quer dizer que não esteja ali. Pior do que isso, a meu ver, é que vai ter muita gente fazendo por “objetar” e “sujeitar” quando for falar de objeto e sujeito, e muita gente não sabendo dessa riqueza de recursos que a mera troca de sílaba tônica permite.

 

E, para continuar na linha do desabafo, tem também as promessas milagrosas:

Você pode apresentar hipótese, mas não pode garantir nada. Se pudesse, há muitos anos alguém já teria feito isso e tomado conta desse mercado.

 

É “aprenda inglês do jeito certo”, “aprenda inglês diferente”, “aprenda inglês agora”, amanhã, depois, anteontem… Pô, vai haver tantos jeitos quanto houver pessoas diferentes.

Ninguém está obrigado a um método.

Nenhum método resolve a vida de todo mundo.

Os métodos servem pra gente aprender; não são uma religião, panaceia, nem Pomada Minâncora, que minha mãe sempre recomendou para todo e qualquer problema de pele. Mas, o óbvio que precisa ser dito, se nem pomada Minâncora resolve tudo, e os dermatologistas que o digam, que dizer de um único método para responder a necessidade de aprendizagem de milhões de pessoas.

Ingles assim não dá gente!

Bom, depois desse desabafo já estou me sentindo melhor. E por favor, lembremos que conhecer – CONHECER – uma língua demora uma vida, se não for vidas mesmo, no plural. Então, quem tiver como colaborar comigo me mostrando o que eu eu ainda não sei – como eu creio ter colaborado compartilhando o que vejo que não está certo – por favor, agradeço a colaboração. Será muito bem-vindo(a).

Uma selfie que fiz com um Ogro na Nova Zelândia.

Join the discussion 2 Comments

  • Emanoel Ferreira de Sousa disse:

    Cristina, tenho meus 19 anos e desde os quinze aprendo inglês “sozinho” pela internet, e eu fico besta como tem gente que acredita e apela pra esses recursos; e a causa disso é que felizmente, desde cedo no meu aprendizado, tive as pessoas certas para me dizer que isso é tudo pura balela, e que esses incapazes abusam do desespero imediatista das pessoas. Carina Fragozo e Cintia Freitas, minhas primeiras inspiradoras back then, podem não ter usado essas palavras, mas ao ouvir suas histórias, percebi que meu aprendizado demandaria certo esforço e tempo se quisesse um ingles tão legal quanto o que ouvia sair de suas bocas brasileiras. E claro, até o dia de hoje eu aumentei minha gama de professores que sigo, jamais incluo esse tipo de gente com inglês enlatado, espero nunca ser um deles, e espero ser um bom professor.

    • Cristina A Schumacher disse:

      Oi Emanuel! Muito obrigada por compartilhar a tua historia e opinião. É isso aí, resistir ao enlatamento! abraços

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