O que as línguas nos obrigam a falar?

By 23/09/2020outubro 15th, 2020Artigos

Como as línguas que falamos nos ajudam a fazer algo que não nos ajuda a viver coletivamente

Outro dia eu assistia a um vídeo sobre consciência. Embora o vídeo tivesse muitas informações importantes, o que realmente ficou pra mim foi a pergunta que o narrador fez, e que nem ele nem ninguém sabe responder. A pergunta tem a ver com a forma como a nossa consciência se manifesta, ao mesmo tempo em que indica como de fato pensamos: por que fazemos nossa narrativa na primeira pessoa?

Em outras palavras, o que o narrador quer saber – e o que me fascinou pensar – é por que que nossa experiência de vida é sempre focada no que sentimos, e somos, e pensamos, individualmente?

Ou alguém aí está acostumado a ouvir frases como “hoje acordamos nos sentindo meio estranhos…” ou ainda “estamos de saco cheio”? Certamente que não; o foco é sempre o “eu”.

Outras línguas, que têm outros jeitos de fazer referência às pessoas, servem de leve inspiração para essa reflexão.

nos tempos do Brasil recém descoberto uma tribo indígena local criou um outro jeito de dizer “nós”; era “nós” que incluia os portugueses. Então eles tinham o “nós” para eles, os da tribo, e o “nós” para coisas que os envolvessem e aos portugueses, ao mesmo tempo. Fiquei impressionada com esse nível de humanidade – e é desnecessário comentar como toda essa generosidade expressiva foi explorada pelos europeus colonizadores…

em japonês não existe um único “eu”. O “eu” ocidental é do indivíduo, aquele que “não se divide”, que é uma integridade básica além da qual as línguas dos “eus” – I, ich, je, yo, io,… – não consegue ir. Os “eus” japoneses são do grupo, da “tribo”, da coletividade a que cada um pertence, e assim servem para revelar uma identidade ao mesmo tempo em que indicam uma participação. “Eus” são diferentes para homens, mulheres, crianças, homens de negócios, prostitutas, … são muitos! Um “eu” para cada grupo social que, por sua vez, somados todos, formam a coletividade maior, a sociedade toda.

– depois têm as línguas que fazem pensar forte em termos de masculino e feminino. O hebraico tem o mesmo “eu” para homens e mulheres, mas em compensação tem conjugação feminina e masculina. Um homem e uma mulher fazem a mesma coisa com formas verbais um tanto diferentes.

Esses poucos exemplos mostram como a nossa expressão está focada em contraste, como o contraste fortalece as diferenças, e como as diferenças – ser diferente, por favor!, eu quero ser único!!! – são o desejo de todo “eu” desta terra. Nesse ponto o “eu” já começou a ser chamado de “ego” mesmo, que é “eu” em grego, mas que nesse uso quer dizer algo como “a supervalorização da minha identidade que me leva a evitar o novo, persistir no erro, etc. etc.”.

E agora é que são elas, como dizia a minha mãe, em um ditado popular que, como não deixar de perceber, está outra vez produzindo a percepção de diferença. Ou quem seriam “elas”, senão alguém que não somos nós?

O ego quer se diferenciar. E as línguas que falamos ajudam a fazer isso, de um jeito ou de outro, criando o contraste. Os exemplos acima provam isso. Há tantos outros. Mas já parou para pensar em como é terrivelmente pouco prático e distrator ficar pensando apenas em si e querendo ser diferente?

É um pouco pior do que isso: querer ser diferente é, sim, terrivelmente inútil.

Olhe como você é por dentro. Salvo alguma anomalia – por dentro somos iguais.

Olhe como você nasce. Cesariana ou parto normal. Somos todos bebês indefesos.

Olhe como você morre – uma última expiração. Rico, pobre, pagão, crente, e até malabarista.

Não importa o esforço, somos irremediavelmente iguais.

Mas espere lá, você vai dizer, eu sou bom – ou “de bem”, duvidosa expressãozinha que morre na primeira busca de definição confiável, mas que ainda assim, como tantas discrepâncias, andou ganhando destaque – sim, você pode ser bom. Isso é muito louvável. Mas ninguém é bom o tempo todo. Pense.

Para fins de se conscientizar de como somos iguais, não importa tanto o que você faz; importa mais o que você não faz, o que nós não fazemos, que é falar no plural, em “nós”. Por nós. Conosco. Ser inclusivo, includente, que eu adoro uma palavrinha nova.

Será que consigo? Ou será que conseguimos? Talvez não seja possível mudar as línguas que falamos, mas certamente será possível pensar no igual que somos, e na coletividade de que dependemos.


Cristina A. Schumacher é uma linguista independente que fala várias línguas, escreveu vários livros e adora – ama, venera – falar sobre o que as palavras fazem. Nós com elas, elas conosco.

Seu processo para desenvolver conhecimentos de inglês como língua estrangeira explora o conhecimento linguístico como ferramenta de auto-descoberta e auto-conhecimento, fazendo a diferença (!) na hora de dar um passo além na carreira.

Conectação – A sua ferramenta para alcançar a pronúncia perfeita de inglês.

Cristina é autora do livro Irohê e a Morte da Palavras.


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