Já parou para pensar na quantidade de vezes que alguém não entende o que você diz? Que você não entende o que dizem?

Às vezes é muito complexo, às vezes é confuso, e às vezes simplesmente não faz sentido. Considere-se ainda distração, deliberada falta de interesse ou assoberbamento. Ou seja, além da complexidade, confusão e falta de sentido ainda podemos estar distraídos, ou não querendo saber ou ainda – algo muito contemporâneo – estamos já fazendo duas ou três coisas e mais uma, humanamente, não dá para encarar.

Acontece que, você vai concordar comigo, mal-entendidos ocorrem mesmo quando as circunstâncias acima não se verificam. Mesmo que seja simples claro e faça sentido o que alguém diz, mesmo que você esteja prestando atenção, tenha interesse e não esteja ocupado com mais nada, ainda assim focinho de porco pode virar tomada.

Mas o que, então, motiva o persistente mal-entendido?

Números e letras não podem ser considerados equivalentes em termos do seu comportamento. Sabemos que números nas operações são previsíveis. Já as palavras, nas frases, nem sem sempre o são. Mesmo assim, gosto de traçar paralelos entre ambos. Afinal ambos, números e palavras, são linguagens. Compartilham do objetivo de expressar alguma coisa para alguém entender.

Para ir comigo onde quero agora levar você, caro(a) leitor(a), é preciso que você fique confortável. Faça umas respirações, mova-se na cadeira, estique os braços. Espreguice-se. E vamos à nossa comparação entre números e letras.

Iniciamos com os números:  divida 1 pela metade. Agora divida a metade de 1 pela metade. De novo. Novamente. Já temos 0,5, 0,25, 0,125, 0,0625… A divisão prossegue, infinita. O pedacinho de alguma coisa que está sendo dividido vai ficando cada vez menor, sim. E sempre pode, pelo menos numericamente, ser re-dividido. O que você faz, com a divisão, é olhar para uma parte diferente da mesma coisa, singularizando-a.

Agora passemos às palavras: entre cada nome de cada coisa também existe um infinito. Olhe em volta: tantas coisas não são nomeadas! Você poderia passar o resto da sua vida descrevendo o espaço “vazio” entre seu computador e seu telefone em sua mesa de trabalho, se levasse a nano-ótica a sério.

Para entender o outro temos de abusar daquilo que as palavras têm, mas os números não, que é identidade no tempo e no espaço. Ser sempre único. As palavras são sempre únicas, pois são sempre ditas em situações únicas. Este momento em que você lê esta linha jamais se repetirá. Com essa singularidade em mente, temos de nos relacionar com as palavras para além daquilo que elas nos dizem objetivamente.

Quando reconhecemos que o onde e o quando são sempre únicos estamos na dimensão da subjetividade. E podemos abusar dela, pois a subjetividade está em tudo, e é maior do que a objetividade, tal qual aqueles números que vão sendo divididos ao infinito. E para que ser subjetivo? Para poder olhar no mesmo espaço e no mesmo momento para o mesmo infinito que o outro com quem nos comunicamos.

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