Em Aak, todos os atores tornavam-se, cedo ou tarde, mendigos. Cedo tornavam-se aqueles que atuavam muito bem e, tarde, os medíocres.
Aak era uma terra de verdades. Era a obrigação de cada ser, planta, animal, anjo, deus ou humano, agir da forma mais autêntica possível. Assim perpetuava-se a Grande Lei do Provável, segundo a qual os que falam o que sentem e agem de acordo com seus entendimentos não perdem jamais a chance de olhar para o céu, a noite ou de dia.
Havia quadros em quase todos os lares, com inscrições que diziam ‘para ver o céu, antes a si mesmo’ ou ‘fale o que sente e só então levante os olhos’ ou ainda ‘contar estrelas apenas após desvendar o próprio coração’.
Os moradores de Aak não eram religiosos e o que de fato prendia sua atenção limitava-se a obsessão pela autenticidade.
Mas os atores, mendigos: a atividade comercial de Aak era custosa. Como se imagina, era ponto de honra informar aos clientes toda a verdade a respeito de qualquer produto ou serviço. E essa era a função dos atores. Poucos , tecnicamente malformados (as escolas de teatro pertenciam à história apenas, tendo sido extintas há muito) com seus cursos por correspondência, os bons atores, os que traziam a habilidade cênica nas veias, atuavam uma vez e logo perdiam seu sustento. Claro, os maus atores tinham trabalho por mais tempo, porque neles seria a interpretação pobre, indicando sua pouca inclinação para fazer de conta. Mas havia quem pensasse que mesmo os bons atores, em sua mendicância institucional pelas ruas de Aak, mereciam ver o céu. E assim, em vez de moedas, muitos atiravam para eles fotos invariavelmente preto e brancas do firmamento.

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